Para onde foram as deusa? Por que não existem mais deusas como antes?

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Para onde foram as deusas?

Se você pudesse viajar seis mil anos no tempo, o céu pareceria bem diferente. Não haveria um único trono, mas muitos. E boa parte deles seria ocupado por mulheres.

Inanna, na Suméria, era adorada como deusa do amor, da guerra e da fertilidade, com um templo tão grandioso que ainda hoje impressiona arqueólogos. Ísis, no Egito, começou como divindade funerária e terminou sendo cultuada em templos por todo o Império Romano — de Pompeia a File. Deméter, na Grécia, presidia os Mistérios de Elêusis, onde se prometia aos iniciados nada menos que vida após a morte.

Mulheres divinas não eram exceção. Eram parte do mobiliário do sagrado.

Então, em algum momento da história, o céu mudou de gênero. E essa mudança não foi acidente — foi processo. Entender por que ela aconteceu é o primeiro passo para entender uma pergunta que muita gente carrega sem saber nomear: por que só aprendemos a rezar a um Pai?

O que a arqueologia realmente encontrou

Existe uma tentação de imaginar um passado dourado, uma "era das deusas" perdida — uma civilização pacífica, matriarcal, destruída pela chegada de deuses guerreiros. É uma boa história. O problema é que ela é, em grande parte, ficção.

A arqueóloga Marija Gimbutas propôs, nos anos 1970, que a Europa neolítica (por volta de 6500 a 3500 a.C.) teria sido uma sociedade "ginecêntrica", organizada em torno do culto a uma Grande Deusa, mais tarde apagada pela chegada de culturas indo-europeias patriarcais. A tese fez sucesso fora da academia — mas dentro dela, foi amplamente contestada. Arqueólogos como Ruth Tringham apontam que estatuetas femininas, como a famosa Vênus de Willendorf, não provam a existência de um culto organizado a uma deusa única. Podem ser bonecas rituais, símbolos de fertilidade doméstica, arte funerária — várias coisas, menos uma prova definitiva.

O que a evidência sustenta com mais solidez é outra coisa: deusas existiram, foram centrais, mas quase sempre dividiram o céu com deuses — e, com frequência, ocupavam esferas específicas: fertilidade, maternidade, os ciclos da terra. Sabedoria, guerra e governo, historicamente, tendiam a ficar do lado masculino do panteão.

A historiadora Tikva Frymer-Kensky, em In the Wake of the Goddesses, chama isso de "gueto divino": o feminino sagrado existia, mas raramente com o mesmo alcance de poder do masculino.

Um vestígio escondido dentro da própria Bíblia

Aqui está um dado que poucos conhecem: existem indícios arqueológicos de que o próprio YHWH, o Deus de Israel, pode ter tido — na religiosidade popular, não na teologia oficial — uma consorte.

As inscrições de Kuntillet Ajrud, no deserto do Sinai, datadas do século VIII a.C., trazem bênçãos que invocam "YHWH e sua Asherah". Estudiosos como William G. Dever interpretam isso como evidência de que parte do povo hebreu antigo cultuava uma deusa, Asherá, ao lado do Deus de Israel. Outros pesquisadores, como Christoph Uehlinger, discordam: para eles, "Asherah" poderia se referir a um objeto de culto — um poste sagrado — e não necessariamente a uma divindade em pessoa. O debate segue aberto, mas o fato de existir já diz muito: mesmo dentro do monoteísmo mais rígido da história, o impulso de reconhecer um feminino divino nunca desapareceu de vez.

Ele apenas mudou de forma.

Nos livros sapienciais da Bíblia — Provérbios, Eclesiástico, Sabedoria de Salomão — a Sabedoria (em hebraico, hokhmah; em grego, sophia) aparece personificada como figura feminina, presente desde antes da criação, quase co-autora do mundo com Deus. Teólogas como Elisabeth Schüssler Fiorenza enxergam nisso um resquício de linguagem divina feminina que sobreviveu à filtragem do monoteísmo — mesmo que o consenso acadêmico trate a Sabedoria como personificação poética, não como uma segunda divindade.

Na mística judaica medieval, a tradição da cabala foi ainda mais longe: descreveu a Shekhinah, a presença de Deus no mundo, como o aspecto feminino do próprio divino — "noiva" da parte masculina de Deus. E, no cristianismo, a figura de Maria, elevada a Theotokos ("Mãe de Deus") no Concílio de Éfeso, em 431 d.C., cresceu tanto em devoção popular que historiadoras como Marina Warner já a descreveram como funcionalmente próxima de uma "deusa cristã" — mesmo que a doutrina oficial jamais a trate como divindade.

Por que isso aconteceu

A resposta mais honesta é: não existe uma causa única. Mas há pistas convergentes.

A historiadora Gerda Lerner, em The Creation of Patriarchy, argumenta que o patriarcado não é um estado natural da humanidade, mas um sistema que se consolidou historicamente — junto com a formação de Estados centralizados, a propriedade privada e a escravidão. Nessa leitura, o apagamento gradual do feminino divino andou junto com a concentração do poder político nas mãos dos homens.

Já filósofos da religião como Karen Armstrong e Mark S. Smith apontam para outro fenômeno, mais abstrato: a própria transição para o monoteísmo exigiu uma desconstrução do divino como corpo sexuado. Deuses antigos eram físicos, localizados, generificados — brigavam, amavam, tinham filhos. Um Deus único, transcendente e universal pedia outra linguagem. E, culturalmente, essa linguagem — Rei, Pai, Senhor dos Exércitos — foi herdada do vocabulário masculino de autoridade.

Não foi, necessariamente, uma decisão consciente de excluir o feminino. Foi a autoridade, historicamente associada ao masculino, sendo naturalizada como "a única forma correta" de falar sobre Deus — até parecer que sempre foi assim.

Mas, como vimos, nunca foi bem assim. O feminino divino não desapareceu. Ele foi empurrado para as margens — Asherá, Sofia, Shekhinah, Maria — como quem insiste em voltar por uma porta lateral, geração após geração, tradição após tradição.

Um Pai — e, então, uma Mãe

Há uma pergunta simples que atravessa boa parte dessas tradições, mas que raramente é dita em voz alta: se existe um Pai celestial, por que não haveria também uma Mãe?

Foi essa pergunta — quase óbvia, quando colocada assim — que uma poetisa americana chamada Eliza R. Snow decidiu responder publicamente em 1845, num poema que se tornaria, décadas depois, um dos hinos mais cantados de sua comunidade religiosa. Escrito nos primeiros anos do movimento dos Santos dos Últimos Dias, movimento cristão restauracionista nascido nos Estados Unidos na década de 1830, o poema dizia, em tradução livre: "Have I a Father in Heaven? Then, by the same reasoning, have I not a Mother there too?" A lógica era quase matemática: pai pressupõe mãe.

Esse poema — hoje cantado como o hino "O My Father" — não inventou a ideia do zero. Ele deu palavras a uma intuição teológica que, como vimos, já rondava outras tradições havia séculos, só que sem nunca ganhar um nome tão direto: Mãe Celestial.

Décadas mais tarde, essa comunidade formalizaria a doutrina em documentos públicos. Em 2016, um deles afirmou algo que resume bem a ideia: todos os seres humanos, homens e mulheres, são filhos espirituais amados de pais celestiais — um Pai Celestial e uma Mãe Celestial.

A lógica teológica por trás disso segue um raciocínio consistente dentro dessa tradição: se Deus é entendido como um ser literal, com atributos de paternidade real — não apenas metafórica —, então a existência espiritual da humanidade, antes desta vida, pressupõe também uma figura materna. Não um símbolo. Uma pessoa. Um casal divino, cuja união espiritual é a origem de toda alma humana.

É uma virada teológica interessante justamente porque resolve, de forma literal, o que outras tradições só sugeriram de forma simbólica. Onde a Sabedoria bíblica é personificação poética e a Shekhinah é presença mística, a Mãe Celestial, nessa doutrina, é entendida como ser real e distinto — tão literal quanto o próprio Pai.

E, ainda assim, há uma reticência deliberada. Líderes dessa tradição já declararam publicamente que a lógica sustenta a crença, mas que não se deve orar a essa Mãe — a devoção segue dirigida ao Pai. Pouco foi revelado sobre ela, dizem, e especulação em excesso é desencorajada. Honrar, sem transformar em culto. Um equilíbrio deliberado entre reconhecer o feminino divino e não repetir os caminhos dos antigos panteões.

Do ponto de vista histórico, é difícil não notar a coincidência: uma tradição religiosa do século XIX, do outro lado do mundo e de milênios de distância das inscrições de Kuntillet Ajrud, chega — por caminhos completamente diferentes — a uma pergunta que Israel antigo, o judaísmo cabalístico e o cristianismo católico também insistiram em fazer, cada um à sua maneira: um Deus só de um gênero conta a história toda?

Por que o cérebro humano insiste em crer em algo maior

Agora, uma pergunta diferente: por que, atravessando culturas tão distantes entre si, os seres humanos continuam, teimosamente, criando deuses?

A ciência cognitiva da religião tem uma resposta que começa não na alma, mas no cérebro. O psicólogo Justin Barrett descreve um mecanismo chamado HADDHyperactive Agency Detection Device, ou "detector hiperativo de agência". Evolutivamente, é mais seguro para um cérebro assumir que um barulho no mato é um predador do que confirmar, com calma, que era só vento. Esse viés de segurança — melhor prevenir do que se arrepender — nos deixou com uma tendência natural de enxergar intenção por trás de fenômenos que talvez não tenham nenhuma: trovões, doenças, boa sorte. É um pequeno passo daí até enxergar um agente divino orquestrando tudo.

O antropólogo Pascal Boyer complementa com outra peça: ideias religiosas tendem a ser "minimamente contraintuitivas" — quebram só algumas regras do mundo normal (um ser que sabe tudo, mas ainda assim tem vontade própria, como um ser humano), o que as torna estranhas o suficiente para prender a atenção, e familiares o suficiente para serem lembradas e repassadas.

Nada disso prova, é claro, se algum deus existe de fato ou não — apenas explica por que a ideia de um divino é tão universal e persistente na espécie humana.

Mas há outra pergunta, talvez mais prática: essa crença faz bem?

O pesquisador Harold Koenig, da Universidade Duke, revisou milhares de estudos sobre religiosidade e saúde ao longo de décadas. O padrão que emerge dessa literatura é consistente: pessoas com vida espiritual ativa tendem a apresentar, em média, menores índices de depressão, mais senso de propósito e melhor enfrentamento diante de perdas e diagnósticos graves. Isso não é unanimidade — outros estudos também documentam o lado sombrio: culpa religiosa, coerção comunitária, sofrimento psicológico ligado a ambientes de fé rígidos demais. Como qualquer estrutura de significado poderosa, a crença religiosa pode curar ou pode ferir, dependendo de como é vivida.

O ponto onde tudo isso se encontra

Talvez a razão pela qual tantas culturas, tão distantes entre si, tenham insistido em imaginar deuses — e, com frequência, deusas — não seja apenas biológica. Talvez seja também existencial.

Acreditar em algo maior não é, necessariamente, uma fuga da razão. Para muita gente, é o contrário: é o que dá coerência a um universo que, de outra forma, pareceria indiferente. É o que transforma a dor em algo que pode ser atravessado, e não apenas suportado. E, se a ciência tem algo a dizer sobre isso, é que essa crença — quando vivida com equilíbrio, sem medo nem coerção — tende a deixar o ser humano mais inteiro, não menos.

Talvez por isso a pergunta que atravessou Sumérios, o Egito antigo, o Israel bíblico e comunidades religiosas modernas nunca tenha realmente desaparecido. Ela só muda de roupagem, de época em época: existe algo — ou alguém — maior do que nós, cuidando de como essa história termina?

E talvez a resposta mais honesta não esteja em provar que sim. Esteja em perceber que, ao longo de toda a história humana, crer — com humildade, sem se fechar para a dúvida — tem sido menos sobre certeza, e mais sobre encontrar um lugar para ficar de pé.

Fontes: Gerda Lerner, The Creation of Patriarchy (1986); Tikva Frymer-Kensky, In the Wake of the Goddesses (1992); Karen Armstrong, The Great Transformation (2006); Mark S. Smith, The Early History of God (2002); Marija Gimbutas e críticas de Ruth Tringham; William G. Dever e Christoph Uehlinger sobre as inscrições de Kuntillet Ajrud; Elisabeth Schüssler Fiorenza sobre a Sabedoria bíblica; Gershom Scholem e Moshe Idel sobre a Shekhinah na Cabala; Marina Warner, Alone of All Her Sex (1976); Eliza R. Snow, "O My Father" (1845); Justin Barrett, Why Would Anyone Believe in God? (2004); Pascal Boyer, Religion Explained (2000); Harold G. Koenig (Duke University), revisões sistemáticas sobre religiosidade e saúde.